Em sua primeira missa dominical após ser proibido pela Arquidiocese de São Paulo de transmitir o rito na internet, o Padre Júlio Lancellotti usou o púlpito neste domingo (21) para fazer um forte discurso em defesa da Pastoral de Rua e denunciar o que chamou de conspiração contra suas ações. O religioso, conhecido por seu trabalho com populações vulneráveis, afirmou que as atividades de atendimento a pessoas em situação de rua estão sendo alvo de ataques coordenados.
"Eu não sei o que é que vai acontecer nas próximas semanas, porque, assim como nós nos juntamos para dizer que somos irmãos, muitos se juntam também para conspirar contra. Assim como nós nos juntamos para rezarmos juntos, outros se juntam para conspirar, para fazer formas de destilar o seu ódio", disse o padre ao final da celebração, após listar uma série de atividades desenvolvidas pela pastoral.
Lancellotti destacou que os críticos não conhecem a história do trabalho social desenvolvido. "O que é interessante é que os que atacam não conhecem a história, não sabem tudo o que foi vivido", acrescentou, em outra parte de sua fala. O religioso fez questão de mencionar as ações concretas realizadas em centros de acolhimento, como o Centro Santa Dulce, a Casa Santa Virgínia e a Casa Nossa Senhora das Mercês.
"Quem quer saber o que é feito é só visitar os trabalhos. É só ir para uma das casas", desafiou o padre, que também detalhou o funcionamento de uma padaria comunitária mantida por doações. "O pão que é feito na padaria, que é mantido pela doação de todos ─ e se faz, ali, 2 mil pães, que são divididos em muitos lugares e aqui também ─, nada disso é custeado pelo poder público e por nenhuma outra instância. É a boa vontade de todos", explicou.
Em seu discurso, Padre Júlio reafirmou seu compromisso com grupos historicamente discriminados, ampliando sua defesa para além da população em situação de rua. "Até o fim, nós estaremos com aqueles que lutam pela terra, pelos povos indígenas, pelas mulheres, pelos negros, por todos os que são discriminados, pela Palestina livre. Mesmo que em alguns momentos sejamos diminuídos, alvejados e feridos, mesmo machucados e sangrando, nós amaremos até o fim", declarou, emocionando os fiéis presentes.
Apesar da determinação da Arquidiocese de São Paulo para que o padre interrompesse as transmissões de missas na internet, a Rede Jornalistas Livres transmitiu ao vivo, pelo Instagram, a celebração deste domingo. A medida da igreja havia sido anunciada na semana anterior, gerando reações de apoio ao religioso nas redes sociais.
O contexto das declarações ocorre em um momento em que o Brasil registra 358 mil pessoas em situação de rua, segundo dados oficiais, com 60% dessa população concentrada na região Sudeste. Paralelamente, temas sociais como a gravidez na adolescência têm sido pauta de discussões envolvendo lideranças religiosas e governamentais.
A Arquidiocese de São Paulo foi procurada pela Agência Brasil durante a semana para se pronunciar sobre a proibição das transmissões, mas não se manifestou até o momento. A situação expõe tensões dentro da igreja católica brasileira sobre os limites da atuação pastoral e o uso de plataformas digitais para disseminação de mensagens religiosas e sociais.

