Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto Butantan e da Universidade de São Paulo (USP) trouxe uma descoberta que pode mudar o jogo no combate à esquistossomose, doença popularmente conhecida como barriga d'água. Publicado na revista Non-Coding RNA, o trabalho identificou mais de 10 mil novos genes de RNA longo não codificante (lncRNA) no genoma do Schistosoma mansoni, o verme causador da doença. Essa descoberta amplia significativamente o conhecimento sobre a biologia do parasita e abre caminho para a identificação de novos alvos terapêuticos.
Conhecida por afetar principalmente populações de baixa renda em áreas com saneamento básico precário, a esquistossomose é uma infecção parasitária transmitida em ambientes de água doce contaminada. As larvas microscópicas do verme, chamadas cercárias, penetram ativamente pela pele durante o contato com a água. "Você não precisa ter uma ferida para ela entrar. Ela secreta proteases que 'comem' a pele e permitem a penetração", explica o professor Sergio Verjovski-Almeida, coordenador do estudo.
Após atravessar a pele, o parasita entra na corrente sanguínea e migra até o fígado, onde amadurece e forma casais que permanecem unidos por toda a vida. A fêmea produz centenas de ovos diariamente - parte é eliminada nas fezes, continuando o ciclo, enquanto outra parte fica retida no organismo humano, causando inflamações e lesões hepáticas graves.
Atualmente, o tratamento depende exclusivamente do praziquantel, único medicamento recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Porém, o fármaco apresenta limitações importantes: não é eficaz contra as formas iniciais do parasita, não impede reinfecções e há indícios de redução em sua eficácia. "Em áreas endêmicas, a população de parasitas é exposta a doses repetidas de praziquantel, o que pode favorecer o surgimento de resistência", alerta Verjovski-Almeida.
Com o objetivo de superar essas limitações, os pesquisadores voltaram sua atenção para os genes não codificantes, especialmente os lncRNAs. Embora não produzam proteínas, essas moléculas regulam diversos processos biológicos no parasita. A grande vantagem é que, diferentemente dos genes codificadores, os lncRNAs apresentam grande variabilidade entre espécies, podendo ser alvos mais específicos do parasita com menor risco de afetar o hospedeiro humano.
Para construir o estudo - apoiado pela Fapesp -, os pesquisadores reuniram quase 1.800 conjuntos de dados públicos de transcriptoma e os integraram à versão mais atualizada do genoma do Schistosoma mansoni. Adotando uma abordagem de "montagem hierárquica do transcriptoma", processaram separadamente os dados de cada estágio do ciclo de vida do parasita: ovo, miracídio, esporocisto, cercária, forma juvenil e adultos (macho e fêmea).
Essa estratégia permitiu detectar transcritos de baixa expressão, como os lncRNAs, que normalmente passam despercebidos em análises globais. Ao todo, foram identificados mais de 10 mil novos genes de lncRNA, somando quase 17 mil novos transcritos. Cerca de 42% desses lncRNAs são expressos em apenas uma fase do ciclo de vida, sugerindo funções altamente especializadas.
Um dos achados mais importantes está na relação entre lncRNAs e o dimorfismo sexual do parasita. Ao comparar vermes machos e fêmeas, os pesquisadores identificaram 635 lncRNAs diferencialmente expressos. Nos machos, esses RNAs estão associados principalmente ao desenvolvimento muscular, essencial para o acasalamento. Já nas fêmeas, regulam processos ligados à replicação de DNA e ao metabolismo, refletindo a intensa produção de ovos.
"A fêmea coloca 300 a 500 ovos por dia. Isso exige uma maquinaria de replicação muito grande", explica Verjovski-Almeida. Como os ovos são os principais responsáveis pelos danos ao organismo, interferir nesse processo pode ser uma estratégia eficaz de controle. "Talvez não seja necessário matar o parasita. Se ela não colocar ovos, você interrompe a transmissão e também evita a destruição do fígado", afirma.
Os próximos passos da pesquisa envolvem validar experimentalmente esses candidatos e explorar seu potencial terapêutico. "O próximo passo será o silenciamento desses genes in vitro e, posteriormente, in vivo", diz Verjovski-Almeida. Paralelamente, o grupo segue aprimorando as análises computacionais para priorizar os candidatos mais promissores como alvos terapêuticos.
Esta pesquisa representa um marco importante na luta contra uma doença que afeta milhões de brasileiros, especialmente nas regiões Nordeste e Sudeste. Ao desvendar os mecanismos genéticos do parasita, os cientistas brasileiros abrem novas possibilidades para tratamentos mais eficazes e, quem sabe, até para o desenvolvimento de uma vacina contra a esquistossomose.

