Há 15 anos, um jovem entrou armado na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona norte do Rio de Janeiro, e abriu fogo contra alunos. O ataque resultou na morte de 12 estudantes, com idades entre 13 e 15 anos, ferimentos em outras 10 pessoas e no suicídio do atirador após ser baleado por policiais. O episódio, que ficou conhecido como Massacre de Realengo, deixou marcas profundas e gerou discussões sobre suas causas ao longo dos anos.

O assassino deixou vídeos e uma carta de suicídio alegando, entre outros motivos, ter sofrido bullying durante o período em que estudou na escola. Essa versão motivou a criação do Dia Nacional de Combate ao Bullying, em 7 de abril, por meio da Lei 13.277/2016. Dados do IBGE mostram que quatro em cada dez adolescentes já sofreram bullying na escola, e estudos indicam que vítimas têm pior desempenho em avaliações internacionais.

No entanto, um grupo de pesquisadoras e ativistas feministas argumenta que um aspecto central do crime foi negligenciado: a misoginia, termo que designa o ódio contra mulheres e ideias de superioridade masculina. Elementos como a diferença no número de vítimas – 10 meninas e 2 meninos – e relatos de testemunhas apontam para questões de gênero. "As explicações que surgiram na mídia à época chegaram a ser ridículas. Morreram mais meninas porque elas correm mais devagar ou porque costumam ser boas alunas e sentar nas primeiras fileiras da sala", lembra Lola Aronovich, pesquisadora e ativista feminista.

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Aronovich destaca que o atirador era claramente um incel (celibatário involuntário) e frequentava fóruns masculinistas no Orkut, onde o massacre era comemorado. "Tudo aponta para um crime movido por misoginia", afirma. Cleo Garcia, doutora em educação pela Unicamp, que estuda violência extrema em escolas, reforça essa análise. Seu levantamento identificou 40 ataques entre 2001 e 2024, todos cometidos por homens, com aumento expressivo recente: 25 casos ocorreram entre 2022 e 2024.

Segundo Garcia, esses crimes estão frequentemente associados a crenças opressoras, como misoginia, racismo e ideologias extremistas, com comunidades online desempenhando papel crucial na radicalização. "A misoginia é um fenômeno multifatorial. Por um lado, há questões psicológicas de cada um que passam a ser exploradas nessas comunidades. Quem tem baixa tolerância à frustração é mais vulnerável às ideias de ódio", explica. Ela também ressalta a influência sociocultural na construção de modelos de masculinidade violenta.

Para enfrentar esse tipo de violência, especialistas defendem ações integradas. Cleo Garcia enfatiza a importância do ambiente escolar na formação social e emocional dos jovens, com diálogo constante entre famílias e instituições. "Não sei se, no geral, profissionais de escolas estão preparados para trabalhar temas complexos de gênero, emoções e até mesmo convivência. E a culpa não é deles. É preciso mais investimento na área de educação", reflete.

Lola Aronovich complementa que é necessário atuar em várias frentes, incluindo segurança pública, educação e regulação digital. "Outra coisa é a regulação das plataformas. Não é possível que elas permitam que tudo isso esteja acontecendo sem fazer nada. Temos pesquisas mostrando que as plataformas lucram com a misoginia e a radicalização dos jovens. Precisamos dar um fim nisso", afirma. A responsabilidade, concluem, é de toda a sociedade, exigindo investimentos em saúde mental, assistência social e políticas públicas eficazes.