Lançado nesta terça-feira (9) em Nairóbi, no Quênia, o sétimo Panorama Ambiental Global (GEO7) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) traz um alerta contundente: a inação diante dos desafios climáticos e ambientais pode resultar em milhões de mortes prematuras e causar danos financeiros colossais à economia mundial. O documento, considerado a principal avaliação científica periódica sobre a trajetória ambiental do planeta, não se limita ao diagnóstico sombrio. Ele também apresenta um caminho de soluções integradas que, se implementadas, podem prevenir tragédias humanas, reduzir a pobreza e render até US$ 20 trilhões por ano em benefícios econômicos até 2070.

De acordo com o relatório, seguir as recomendações é o caminho necessário para evitar 9 milhões de mortes prematuras relacionadas à poluição, tirar 200 milhões de pessoas da subnutrição e outros 150 milhões da pobreza extrema. No entanto, os cientistas são enfáticos ao afirmar que promover essas transformações exigirá altos investimentos iniciais e uma mudança de paradigma em como as sociedades e governos operam.

O preço da inação versus o custo da ação

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O estudo quantifica os riscos de manter o status quo. Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma, alerta que "o custo da inação é muito maior". Ela cita que, em um cenário projetado pelo relatório, as mudanças climáticas podem reduzir em 4% o PIB global anual até 2050, além de ceifar vidas e aumentar a migração forçada. Somente nas últimas duas décadas, a trajetória de aumento da temperatura e os eventos climáticos extremos já somam um custo estimado em US$ 143 bilhões ao ano.

As perdas econômicas anuais relacionadas à saúde são igualmente assustadoras. Em 2019, os custos decorrentes da poluição do ar demandaram US$ 8,1 trilhões. Já os prejuízos causados pela exposição a substâncias químicas tóxicas presentes nos plásticos são estimados em US$ 1,5 trilhão anuais. Diante desse quadro, os cientistas argumentam que o caminho proposto pelo GEO7 não é mais uma mera escolha política, mas uma necessidade inevitável.

"Os danos evitados e os retornos de longo prazo sobre os investimentos mais do que compensam o que é necessário. Os benefícios macroeconômicos globais desse caminho aparecem em 2050 e crescem para US$ 20 trilhões ao ano até 2070, com um boom a partir daí", reforça Inger Andersen. Para colocar o planeta na rota da neutralidade de emissões de gases do efeito estufa até 2050 e promover a conservação da biodiversidade, o relatório estima a necessidade de investimentos da ordem de US$ 8 trilhões anuais.

Uma transformação sem precedentes

O cientista Robert Watson, copresidente de avaliação do GEO7, ressalta que o relatório aponta a necessidade de mudanças profundas e um esforço coletivo e inclusivo. "Vai requerer uma transformação sem precedente, integrada, rápida e inovadora das nossas finanças, economia, dos materiais, energia, sistemas alimentares e ambientais. Requer uma mistura de mudanças de comportamento, tecnológicas e nos governos como um todo. Esse não é um desafio para ministros de Meio Ambiente sozinhos. É para cada ministro, em cada governo no mundo, e para toda a sociedade", avalia.

O documento também sugere uma mudança na abordagem das tomadas de decisão. "Seguir esse caminho começa por ir além do PIB como medida do bem-estar econômico, utilizando indicadores inclusivos que também acompanham a saúde humana e o capital natural e continuam a transição para modelos econômicos circulares e uma rápida descarbonização", explica a diretora do Pnuma.

Um chamado para a ação global

O GEO7 reúne o trabalho de 287 cientistas de 82 países, com contribuições de mais de 800 revisores ao redor do mundo. Seu objetivo é responder à busca global por soluções efetivas e urgentes para tornar o planeta mais resiliente. Para Inger Andersen, o relatório "deve servir de motivação para que as nações dêem seguimento aos progressos alcançados na COP30 da UNFCCC [Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, ocorrida em Belém, no mês de novembro], implementando as suas atuais promessas climáticas e descobrindo formas de as reforçar ainda mais".

O documento chega em um momento crucial, quando o mundo avalia os compromissos assumidos em fóruns como a COP30 e busca caminhos concretos para acelerar a ação climática. A mensagem central do GEO7 é clara: o custo de não agir é catastrófico, mas o investimento em uma transformação sistêmica oferece não apenas a salvaguarda do planeta, mas também um futuro economicamente mais próspero e socialmente mais justo.