Hannah Charlier, de 83 anos, carrega uma das histórias mais extraordinárias de sobrevivência do Holocausto. Nascida em 1944 na Bélgica, filha de judeus que participavam da resistência contra o nazismo, ela veio ao mundo em circunstâncias dramáticas: sua mãe estava grávida quando foi capturada pelos alemães e levada para a prisão, onde Hannah nasceu.
Quando seus pais foram encaminhados para o fuzilamento, Hannah era apenas um bebê. Sua mãe, momentos antes de ser executada, colocou-a em um pequeno embrulho que amarrou nas costas. "Quando minha mãe foi fuzilada, acabou caindo sobre mim. E, em cima dela, caíram outras pessoas", conta Hannah em relato emocionante.
O que parecia ser o fim se transformou em um milagre. Um oficial alemão que acompanhava o fuzilamento notou que a mãe de Hannah tentava proteger algo. "Ele ficou curioso para saber porque ela dava tanta importância para aquilo que ela tentou proteger. Então, ele mandou todo mundo para casa e, quando todos saíram, ele voltou para lá e puxou esse 'embrulho' que estava embaixo da minha mãe. Foi então que ele viu que era uma criança", relata a sobrevivente.
O oficial a colocou em uma mochila, sem que ninguém visse, e foi deixá-la entre um grupo de judeus da resistência. "Os resistentes sabiam que essa criança só podia ser filha da minha mãe, que era uma resistente que foi pega grávida. E eu acabei sendo entregue a uma senhora que era responsável pelo Serviço Social da Infância, uma mulher que acabou salvando mais de 5 mil crianças judias", detalha Hannah.
Aos 9 anos, após passar por um orfanato, Hannah foi adotada por um casal que imigrou para o Brasil, onde vive até hoje. Sua história ilustra o que foi o Holocausto - definido pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos como "a perseguição sistemática e o assassinato de 6 milhões de judeus europeus pelo regime nazista alemão, seus aliados e colaboradores".
Para marcar o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, celebrado em 27 de janeiro, foi lançada nesta quinta-feira (22) no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto de São Paulo uma pesquisa preocupante: enquanto 59,3% dos brasileiros já ouviram falar do Holocausto, apenas metade (53,2%) soube defini-lo corretamente.
"A conclusão principal que a gente está tirando dessa pesquisa é que tem uma grande parcela da população brasileira que não sabe exatamente o que foi o Holocausto. O termo pode ser conhecido, mas os detalhes não. Isso é muito importante nos dias de hoje, porque a gente está vivendo um momento em que o discurso de ódio está circulando muito pelas redes sociais. Os jovens estão consumindo muito conteúdo com apologia ao nazismo e com banalização do Holocausto", destaca Hana Nusbaum, gerente de Educação da Stand WithUs Brasil.
O conhecimento se mostra ainda mais frágil em aspectos específicos: apenas 38% dos entrevistados reconheceram que Auschwitz-Birkenau foi um campo de concentração e extermínio do povo judeu.
Sergio Napchan, diretor executivo da Confederação Israelita do Brasil (Conib), explica que "o Holocausto em si é um recorte, esses números não são precisos, mas morreram 6 milhões de pessoas. Um terço dos judeus que moravam na Europa foram exterminados por serem judeus". Ele ressalta ainda que "os holocaustos foram prioritariamente judeus, mas não apenas. Toda essa população LGBT da época foi condenada, prisioneiros políticos foram condenados, testemunhas de Jeová. Ou seja, essa história não é uma história judaica. Os judeus foram os mais vitimados, mas ela vai além disso".
A pesquisa, intitulada Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil, foi desenvolvida pelo Grupo Ispo a pedido da Conib, do Memorial do Holocausto de São Paulo, do Museu do Holocausto de Curitiba e da Stand WithUs Brasil. Foram ouvidas 7.762 pessoas de 11 regiões metropolitanas do país, com exceção da Região Norte, entre abril e outubro do ano passado.
Os dados revelam que a principal fonte de conhecimento sobre o tema é a escola (30,9%), seguida por filmes e livros (18,6%) e a internet e redes sociais (12,5%). Preocupa o fato de que museus, memoriais e instituições especializadas foram citados por apenas 1,7% das pessoas, indicando baixo acesso a espaços formais de memória.
Para Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, esses dados reforçam a importância da educação e da cultura. "O museu tem um papel fundamental na construção dessa memória. A gente acredita muito na responsabilidade social dos museus e em uma museologia social que presta serviço para a sociedade, que se envolve nas pautas públicas e que se coloca contra os discursos de ódio, a violência, o racismo, a homofobia e a violência contra a mulher", defende.
Hana Nusbaum enfatiza o papel transformador da educação: "Quando os alunos brasileiros compreendem o que foi o Holocausto, isso fortalece justamente a formação cidadã deles. O sobrevivente Gabriel Waldman, quando é chamado para falar sobre isso, fala que está na sala de aula 'para vacinar os alunos contra o ódio'. E é justamente isso que a gente precisa promover no ensino do Holocausto nas escolas brasileiras".
Sergio Napchan complementa: "Se você educar, se você falar, se você marcar, se você significar e der significado do que representou e o que não pode mais acontecer, queira Deus que a gente consiga trabalhar com a premissa de que nunca mais vai acontecer. A gente não garante nada. O mundo anda confuso. Mas queira Deus que fazendo isso, estaremos fazendo a nossa parte".
Nos próximos dias, diversos atos marcarão o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto. No domingo (25), um ato será realizado na Congregação Israelita Paulista em São Paulo, às 18h. Na segunda-feira (26), a Casa do Povo, também na capital paulista, receberá a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, para encontro com instituições da comunidade judaica e do bairro Bom Retiro, a partir das 18h20.
A história de Hannah Charlier e os dados da pesquisa servem como alerta: conhecer o passado é fundamental para construir um futuro sem ódio e violência. Como resume Napchan, o Holocausto foi "a maior tragédia que a humanidade viveu no século 20" - e lembrá-lo é um dever de todos.

