Uma trend que viralizou nas redes sociais nas últimas semanas está gerando preocupação e revolta entre autoridades e especialistas em direitos das mulheres. Vídeos que mostram homens simulando socos, chutes e até facadas contra mulheres como "resposta" a uma rejeição romântica ganharam popularidade justamente em um momento de aumento nos debates sobre violência de gênero no Brasil.
A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) foi uma das primeiras a denunciar publicamente esses conteúdos. Em vídeo publicado em suas redes sociais, a parlamentar afirmou ter acionado o Ministério Público para investigar os perfis responsáveis. "Como as redes não são regulamentadas no Brasil, eles chamam isso de liberdade. Ou vão chamar de brincadeira. Um absurdo, por isso eu acionei o Ministério Público para investigar esses perfis e outros que estão cometendo esse crime de incitar o ódio contra as mulheres", declarou.
Na avaliação de Duda Salabert, esses vídeos evidenciam a urgência de regulamentar as plataformas digitais. Ela defende a aprovação de um projeto de lei de sua autoria que tipifica como crime a misoginia coordenada e coletiva praticada nas redes sociais. A proposta busca criar mecanismos legais para combater conteúdos que promovem sistematicamente o ódio contra mulheres.
A advogada criminalista Pamela Villar explica que esse tipo de publicação pode sim configurar crime. "Se uma pessoa, em razão do conteúdo da trend, agredir uma mulher por ela se recusar a se relacionar com ele, ambos responderão criminalmente por lesão corporal. E se mais de uma pessoa seguir esse mesmo roteiro, a pessoa que fez o vídeo pode ser responsabilizado criminalmente em cada um desses delitos, separadamente, o que pode chegar aí a responsabilização criminal e penas altíssimas", afirma a especialista.
Esses conteúdos misóginos encontram terreno fértil na chamada "machosfera" - termo que abrange comunidades online voltadas para o público masculino que promovem discursos de ódio contra mulheres e comportamentos agressivos. Dentro desse ecossistema digital, destacam-se os "red pills", movimento que defende a ideia de que homens estão sendo manipulados ou oprimidos por mulheres e pela sociedade moderna, e os "incels" (celibatários involuntários), que culpam mulheres pela falta de relacionamentos afetivos ou sexuais.
Diante do crescimento desses conteúdos, setores da sociedade defendem que a misoginia se torne crime específico. A Comissão de Constituição e Justição do Senado aprovou, em outubro do ano passado, um projeto que prevê pena de 2 a 5 anos de prisão para quem praticar atos de ódio contra mulheres. No entanto, a responsabilização das plataformas digitais ainda enfrenta obstáculos jurídicos significativos.
Atualmente, sem uma decisão judicial, o único tipo de vídeo que deve ser retirado imediatamente das redes é aquele relacionado a crimes sexuais, mediante notificação da vítima. Mesmo nesses casos, conforme explica a advogada Pamela Villar, a chance de responsabilização criminal das empresas é remota. "Do ponto de vista criminal existe, ainda que seja uma possibilidade muito remota de responsabilização pelos responsáveis legais da empresa, por uma prática de um crime omissivo: você deixar de agir quando você possui ferramentas e o dever de o fazer. Embora concretamente isso seja muito difícil de acontecer".
Os números da violência contra mulheres no Brasil reforçam a gravidade do contexto. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que o país registra atualmente quatro feminicídios por dia, totalizando 1.547 casos em 2025. Todos os anos, desde 2015, esse número vem aumentando. Somente em janeiro deste ano, 131 mulheres sofreram feminicídio, quase 5% a mais que no mesmo mês do ano passado. O primeiro mês do ano ainda registrou 5.200 estupros, cerca de 168 por dia.
Casos de violência contra mulheres podem e devem ser denunciados pelo Ligue 180, serviço gratuito disponível 24 horas. A trend que viralizou nas redes sociais, embora apresentada como "brincadeira" por alguns criadores de conteúdo, reflete e potencializa um problema social grave que exige atenção tanto das autoridades quanto da sociedade como um todo.

