Imagine uma plantação de milho crescendo à sombra de uma castanheira-do-pará, ou lavouras convivendo harmonicamente com árvores nativas. Esta não é uma cena de ficção, mas sim a realidade da agrofloresta, sistema que combina produção agrícola com preservação ambiental e tem sido apontado por especialistas como uma das principais alternativas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
O modelo, que busca transformar técnicas de monocultivo em florestas biodiversas, foi destaque durante as discussões da COP 30 em Belém, no Pará, onde o Brasil apresentou sua agenda de florestas produtivas para o mundo. A proposta é simples: em vez de agrotóxicos e produtos químicos, a agrofloresta se baseia na própria ecologia, considerando o equilíbrio natural entre plantas, pragas e o meio ambiente.
Em entrevista ao podcast S.O.S! Terra Chamando!, uma coprodução da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o engenheiro agrônomo Moisés Savian, secretário do Ministério do Desenvolvimento Agrário, explicou que a agrofloresta atua em duas frentes: mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.
"Quando eu estou diminuindo a emissão de carbono, eu estou mitigando. Se eu, por exemplo, tenho um pasto ralinho e eu monto uma agrofloresta, eu vou trazer para a superfície o carbono que está excessivo na atmosfera", disse Savian. "Se eu tenho uma lavoura de milho que não resiste muito tempo sem chuva - diante da crise hídrica - e junto esta lavoura à floresta, que tem sombra e raízes profundas, o milho se beneficiará da captação de água de uma castanheira, por exemplo".
A lógica vai além da questão ambiental, agregando geração de renda e produção de alimentos como ferramentas potentes contra a fome no mundo. Savian lembra que o sistema é especialmente importante para áreas degradadas no Brasil. "Nós temos muita pastagem subutilizada. São áreas em que não estão produzindo alimentos e não estão servindo para a questão ecológica também", afirmou.
Embora tenha ganhado popularidade recentemente, a agrofloresta é uma técnica ancestral, como destacou o climatologista Carlos Nobre em entrevista ao mesmo podcast. "Os indígenas chegaram na Amazônia 12, 14 mil anos atrás, e eles sempre utilizaram o conhecimento muito bem para tudo, para a saúde deles, para alimentação, no transporte, os produtos da biodiversidade", disse Nobre. "Os indígenas utilizaram e utilizam ainda mais de 2,3 mil produtos da biodiversidade, por exemplo, 250 frutas alimentares, 1.450 plantas medicinais. Eles aprenderam a conviver muito bem com a floresta".
Em Botuporã, cidade baiana com cerca de 11 mil habitantes, um projeto de cooperação internacional com comunidades da França tem incentivado moradores e jovens lideranças a entender a importância de unir o agro à ecologia. O estudante de Direito Yago Fagundes, de 20 anos, participou de uma imersão em agroecologia na França e depois aplicou os conhecimentos no Brasil.
"A experiência no Brasil tem sido de empoderamento rural. Nós recebemos, por exemplo, especialistas franceses que capacitaram nossos agricultores na produção do queijo Tomme de Vache, utilizando uma receita milenar de forma sustentável", contou Yago. "Na França, eu vivenciei essa prática de perto, morei com agricultores com o selo 'BIO' e participei ativamente da construção de cercas vivas e projetos de plantio em escolas, elementos cruciais para a biodiversidade".
O prefeito da cidade francesa de Eschbach, Hervé Tritschberger, idealizador do projeto, destacou a importância da troca de saberes. "Brasil e França não têm os mesmos desafios, mas temos os mesmos objetivos, que é trabalhar para o desenvolvimento sustentável. O paradoxo dos países europeus é que eles não querem produzir alimentos com agrotóxicos, mas os consomem em importações", observou.
A troca de conhecimentos pode acontecer também em escala familiar, como no caso do jornalista socioambiental William Torres, do Rio de Janeiro. "A minha primeira referência em agroecologia foi o quintal da minha avó e bisavó paternas, quando eu ainda era bem novinho e, àquela época, não fazia ideia da preciosidade que estava ao meu alcance", relatou Torres, que hoje cultiva verduras e leguminosas no próprio quintal.
Para Savian, um dos desafios ainda a ser superado é conquistar os consumidores. "Porque nós temos hoje, muita gente vive contando o dinheiro para passar o mês. Algumas outras pessoas podem pagar um pouco mais por um produto que é diferenciado", ponderou. Ele citou iniciativas como a de uma rede de supermercados internacional que está criando uma prateleira específica para "produtos da floresta" com pagamento antecipado aos agricultores.
O secretário acredita que a Floresta em Pé pode ser parte da solução para a emergência climática, mas ressalta que não se trata de uma solução rápida. "Não é um remédio que você vai tomar na veia e vai resolver num dia pro outro, mas é uma dose meio homeopática - tomada em pequenas quantidades, mas de forma contínua", comparou.
Como resultado das experiências de cooperação internacional, foi publicado um livro com a consolidação das principais trocas, disponibilizado gratuitamente e apresentado durante o Festival Nosso Futuro, realizado em Salvador. A iniciativa mostra que, seja por meio de políticas públicas, cooperação internacional ou ações individuais, a agrofloresta se consolida como um caminho promissor para conciliar produção de alimentos e preservação ambiental.

