Trinta e seis anos após o assassinato de Chico Mendes, sua filha Ângela Maria Feitosa Mendes carrega adiante a bandeira da luta ambiental que marcou a trajetória do pai. O líder seringueiro foi morto aos 44 anos, em 1988, a mando de fazendeiros em Xapuri, no Acre, por sua defesa incansável da floresta e dos povos tradicionais. Hoje, Ângela comanda o Comitê Chico Mendes, espaço criado na noite do crime para exigir justiça e manter viva a memória do chamado Mártir da Floresta.

O comitê, que nasceu da dor e da indignação de companheiros de luta, transformou-se ao longo dos anos em uma referência na mobilização por justiça socioambiental. A reação à morte de Chico Mendes resultou, dois anos depois, na condenação dos fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira a 19 anos de prisão. Mas a luta continuou, inspirada no legado do seringueiro que, em vida, combateu as condições precárias de trabalho e a destruição da Amazônia.

Chico Mendes foi um dos criadores da Aliança dos Povos da Floresta, nos anos 1980, unindo indígenas e seringueiros na reivindicação por demarcações de terras e criação de reservas extrativistas. Seu nome hoje batiza o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia federal responsável pelas unidades de conservação do país. Se estivesse vivo, ele completaria 81 anos em dezembro.

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Ângela Mendes esteve em Belém durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), onde conversou com a Agência Brasil no espaço Chico Mendes, montado no Museu Paraense Emílio Goeldi. Ela avalia os resultados da conferência, critica a exploração de petróleo na Foz do Amazonas e reflete sobre como seu pai enxergaria uma COP na Amazônia.

O comitê e a inspiração na carta para os jovens

Ângela explica que o Comitê Chico Mendes foi criado na noite do assassinato do pai, por companheiros que, sob muita dor, entenderam a necessidade de mobilizar a sociedade nacional e internacional para exigir justiça. "Era necessário que esse mesmo espaço reverberasse, cuidasse dessa memória de luta que ele nos deixou", afirma.

Uma das iniciativas mais significativas do comitê é a Semana Chico Mendes, que acontece do aniversário dele, em 15 de dezembro, até a data de sua morte, no dia 22. Em 2016, inspirados por uma carta escrita por Chico pouco antes de morrer e dedicada aos jovens do futuro, o comitê criou o núcleo jovem. "A gente pensou em ter essa carta como uma referência, uma inspiração para a gente começar a falar sobre a importância da juventude, sobretudo dos territórios", diz Ângela.

Na carta, Chico Mendes sonha com um mundo que superou a exploração, onde resta "somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte". Ele finaliza: "Desculpem. Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado".

Em 2020, o comitê realizou o primeiro Festival Jovens do Futuro, na data da escrita da carta, 6 de setembro. O evento reuniu jovens de mais de 20 países online, mostrando como a mensagem visionária de Chico ecoa globalmente. "A gente entendeu como, de fato, os jovens do mundo estavam mobilizados nessa luta por um mundo melhor, por justiça social", comemora Ângela.

COP30 e a voz dos territórios

Sobre a COP30, Ângela avalia que as conferências do clima avançaram pouco no que diz respeito aos direitos das populações tradicionais. "Quando uma COP, que fala de justiça climática, acontece aqui na Amazônia, a gente olha e vê como existe um desafio muito grande para as populações de floresta", observa. Ela destaca que, apesar das reivindicações, não acredita que essas vozes estejam sendo ouvidas plenamente nos espaços de negociação.

No entanto, Ângela reconhece que a COP30 trouxe inovações, como os processos de diálogo implementados pelo governo brasileiro e o papel dos enviados, que fazem a ponte entre a sociedade civil e os negociadores. "Acho que são importantes iniciativas que aproximam os povos dos territórios dessa alta cúpula dos líderes", afirma.

Ela cita eventos paralelos como o Porongaço, que reuniu mais de mil extrativistas, e a Marcha Mundial pelo Clima, com mais de 70 mil participantes, como demonstrações da resistência e da produção de soluções locais para a crise climática. "O que fica de entendimento é que as soluções para essa crise climática precisam incluir quem está no território", defende.

Desafios e a luta contra o lobby dos combustíveis fósseis

Ângela critica duramente o lobby da indústria de combustíveis fósseis, que, segundo ela, ainda domina as COPs. "Os lobistas estão presentes em todas as COPs, têm dinheiro para pagar suas passagens, estadia nos melhores hotéis, para fazer com que essa indústria não perca espaço", denuncia. Ela cita como exemplo o licenciamento para exploração de petróleo na Foz do Amazonas, que considera contraditório com o discurso de transição justa.

"Não justifica que a gente esteja aqui na Amazônia, recebendo a COP para pensar soluções e, de repente, a solução que o Brasil encontra é aquela que já mostrou que traz mais problema", argumenta. Para ela, é essencial que o governo reveja seu posicionamento sobre a exploração de combustíveis fósseis na região.

Alianças e o exemplo de Chico Mendes

Ângela defende a construção de alianças como forma de enfrentar a crise ambiental, seguindo o exemplo do pai, que uniu seringueiros e indígenas na década de 1980. "Cada parte, cada segmento da sociedade pode contribuir para as soluções", afirma. Ela cita a academia, os bancos e as indústrias como atores-chave nesse processo.

"Os bancos podem deixar de financiar apenas o agronegócio e abrir linhas para os pequenos empreendedores. As indústrias farmacêutica e cosmética poderiam repensar sua relação com as comunidades, incluindo-as no processo de beneficiamento e pagando preços justos pelas matérias-primas", propõe.

Ela destaca a importância do Armazém da Sociobiodiversidade, espaço montado na COP30 que reúne produtos sustentáveis de diferentes biomas brasileiros, como exemplo de como é possível se relacionar com a floresta de forma harmônica. "A gente mostra outras formas de se relacionar com esse território de forma sustentável, garantindo esses ecossistemas não só para a presente, mas para a futura geração", explica.

O papel das reservas extrativistas

Ângela enfatiza a importância estratégica das reservas extrativistas (Resex) na conservação da floresta e na manutenção dos modos de vida tradicionais. "As Resex são territórios estratégicos, uma grande fronteira contra os desmatamentos e as queimadas", afirma. Ela lembra que, quando Chico Mendes foi assassinado, ainda não existiam reservas extrativistas, que só começaram a ser criadas a partir de 1990.

Hoje, são 96 Resex sob gestão federal, protegendo mais de 60 milhões de hectares de biomas e abrigando mais de 1 milhão de famílias. "É um número bastante expressivo, mostra como a luta dele não foi em vão", orgulha-se. "A sua morte, a gente entende também que não foi em vão, apesar de entender que se ele estivesse vivo, hoje a gente teria avançado ainda mais."

Perspectivas e resistência

Apesar dos desafios, Ângela mantém o otimismo. "Se fosse para ficar pessimista, a gente não teria feito todo o esforço que a gente fez para trazer esse espaço maravilhoso aqui para a COP", diz, referindo-se ao ambiente montado no Museu Goeldi. Ela acredita na força das alianças e na organização dos movimentos sociais para enfrentar o que chama de "sistema capitalista violento".

Sobre ser uma mulher ambientalista em um país que lidera estatísticas de assassinatos de defensores do território, Ângela reconhece as dificuldades, mas afirma: "A gente nunca foge da luta porque entende que o que a gente está construindo é pelo presente, pelo futuro, por todos os que estão aqui e pelos que virão".

E finaliza, com a mesma determinação do pai: "Não é para deixar esses caras acharem que eles estão ganhando porque têm mais dinheiro, porque têm poder. A gente ainda está vivo hoje, ainda está resistindo, porque a gente está junto, se organiza em movimento e vai tocando".