A plumagem vibrante em azul, amarelo e verde das araras-canindés voltou a colorir o céu da cidade do Rio de Janeiro neste início de ano, em um marco para a conservação da biodiversidade fluminense. Três fêmeas da espécie, batizadas de Fernanda, Suely e Fátima, foram soltas no Parque Nacional da Tijuca pela organização Refauna, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), na primeira reintrodução da arara-canindé na capital onde ela era considerada extinta.

"Não tem mais população de araras-canindés [no Rio]", afirmou à Agência Brasil a bióloga Lara Renzeti, coordenadora de reintrodução das araras pelo Refauna. "Essa foi a primeira e, até agora, a única soltura dessa espécie de aves no Rio de Janeiro". Os nomes das aves homenageiam personagens da cultura brasileira: Fernanda Torres, atriz premiada por Ainda Estou Aqui, e suas parceiras Fátima e Suely da série Tapas e Beijos.

As araras vieram do Refúgio das Aves, no Parque Três Pescadores em Aparecida (SP), centro especializado em reabilitação de animais silvestres. Um quarto indivíduo, o macho Selton (em referência ao ator Selton Mello), não pôde ser liberado porque ainda se recupera de uma infecção pulmonar que enfraqueceu suas penas de voo. Ele aguardará a chegada de um novo grupo de quatro a seis araras, previsto para março, para passar pelo processo de aclimatação conjunto.

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O treinamento para a soltura é minucioso. As aves chegaram ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025 e ficaram em um recinto de 20 metros dentro da floresta para se acostumarem aos sons e cheiros locais. "A gente começa a ensinar a elas algumas coisas, como treinamento de voo que, além de facilitar que a gente consiga manejá-las, é como se fosse um exercício diário para ter musculatura peitoral", explicou Lara. A equipe também corrige comportamentos inadequados, como aproximação de pessoas, e faz transição alimentar para frutas nativas como jabuticabas.

Após a soltura, o monitoramento continua intenso. As araras foram liberadas com anilhas, microchips e colares, e a equipe do Refauna mantém plataformas suspensas com comida suplementar enquanto aprendem a buscar alimento sozinhas. "Quando a gente abre a porta, tudo pode acontecer. Pode demorar um tempo até que os animais aprendam a procurar e a encontrar comida", disse a coordenadora. A população pode ajudar através do Ciência Cidadã, enviando avistamentos pelo Instagram do Refauna, WhatsApp (21 969744752) ou aplicativo SISS-Geo da Fiocruz.

Viviane Lasmar, analista ambiental do ICMBio e chefe do Parque Nacional da Tijuca, destacou a importância da educação ambiental: "As pessoas têm se aproximado cada vez mais. Essa é uma boa hora mesmo para ver se a gente consegue contribuir um pouco para diminuir a ignorância ambiental". O Refauna desenvolve cursos para guias de turismo do parque, ensinando condutas responsáveis em encontros com a fauna.

A meta do projeto é soltar 50 araras-canindés em cinco anos, liberando cerca de dez anualmente. Lara Renzeti ressalta que "a reintrodução não é uma ciência exata" e que nem todos os indivíduos se estabelecerão. Globalmente, a espécie não está ameaçada, mas desapareceu do estado do Rio de Janeiro, onde havia registros históricos desde o Século 16 na Mata Atlântica litorânea.

Esta iniciativa integra um trabalho mais amplo de restauração ecológica. Desde 2010, o Refauna já reintroduziu cutias-vermelhas, jabutis-tinga, bugios-ruivos e antas em áreas do Rio de Janeiro. O combate à defaunação é crucial: estudos indicam que 90% das plantas da Mata Atlântica dependem de animais para dispersão de sementes. Dados do IBGE de 2023 mostram que 43% da fauna ameaçada do Brasil é exclusiva desse bioma, que concentra o maior número de espécies em risco do país.

Para Viviane Lasmar, a volta das araras-canindés "é sinal de que a floresta está bem" e demonstra a relevância da conservação: "A [Floresta da] Tijuca é muito mais do que turismo e o Cristo Redentor". O parque nacional apoia a infraestrutura do projeto, desde viveiros até transporte, e se prepara para receber o próximo grupo de araras com os braços abertos, reescrevendo a história da biodiversidade carioca.