O encerramento da Cúpula dos Povos, realizado neste domingo (16) em Belém, marcou um momento significativo de diálogo entre a sociedade civil organizada e a presidência da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da conferência climática, recebeu pessoalmente a carta final com as reivindicações dos participantes e assumiu o compromisso público de levar essas demandas para as reuniões de alto nível que se iniciam nesta semana.

Durante seu discurso no encerramento do evento, Corrêa do Lago reconheceu as dificuldades inerentes ao processo de negociação multilateral, mas destacou a importância da participação social registrada em Belém. "Vocês sabem que isso [a COP] é basicamente uma grande negociação dentro das Nações Unidas, com 195 países que têm que estar de acordo com tudo, porque é tudo por consenso. Então, é uma negociação superdifícil. Mas saber que a sociedade civil mundial tem voz em Belém é absolutamente sensacional", afirmou o diplomata.

O embaixador foi ainda mais enfático ao garantir que registrará o trabalho da Cúpula dos Povos na abertura da reunião de alto nível: "Por isso, eu agradeço a vocês por esse trabalho, que eu registrarei, na abertura da reunião de alto nível, que começa, amanhã, na COP. Fico muito, muito feliz de poder presidir essa COP com esse apoio que eu estou sentindo aqui hoje".

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Além da carta principal do comitê político da Cúpula dos Povos, Corrêa do Lago recebeu também um documento especial: a carta da Cúpula das Infâncias, elaborada por aproximadamente 700 crianças e adolescentes que participaram das atividades paralelas. O texto, carregado de emoção e urgência, expressa o temor das novas gerações frente à crise climática.

"Para que as próximas crianças e adolescentes não tenham medo do calor, da fumaça, da falta de água, da extinção dos animais. Para que elas possam desenhar florestas vivas e não florestas morrendo", diz um trecho do documento infantil, que continua: "Somos muitos e muitas crianças e adolescentes, cada uma com um jeito, um desenho, uma fala, um sonho. Mas todas com o mesmo ideal, por dentro do nosso planeta, agora, queremos continuar vivos e vivas, crescer no mundo bonito, no mundo que ainda respire, com esperança e sem medo".

A carta final da Cúpula dos Povos apresenta uma crítica contundente ao que os participantes classificam como "falsas soluções" para o enfrentamento da emergência climática. O documento defende uma visão baseada no "internacionalismo popular, com intercâmbios de conhecimentos e saberes, que constroem laços de solidariedade, de lutas e de cooperação entre nossos povos".

O texto identifica o modo de produção capitalista como a causa principal da crise climática crescente e salienta que as comunidades periféricas são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos e pelo que denominam de racismo ambiental. As empresas transnacionais, especialmente das indústrias de mineração, energia, armas, agronegócio e Big Techs, são apontadas como principais responsáveis pela catástrofe climática.

Entre as demandas específicas apresentadas na carta estão: a demarcação de terras indígenas e de outros povos; reforma agrária e fomento à agroecologia; fim do uso de combustíveis fósseis; financiamento público para uma transição justa, com taxação das corporações, agronegócio e dos mais ricos; e fim das guerras. O documento cobra ainda "participação e protagonismo dos povos na construção de soluções climáticas, reconhecendo os saberes ancestrais".

A Cúpula dos Povos reuniu aproximadamente 70 mil pessoas representando uma ampla diversidade de movimentos sociais locais, nacionais e internacionais. Entre os participantes estavam povos originários e tradicionais, camponeses, indígenas, quilombolas, pescadores, extrativistas, marisqueiras, trabalhadores urbanos, sindicalistas, população em situação de rua, quebradeiras de coco babaçu, povos de terreiro, mulheres, comunidade LGBTQIAPN+, jovens, afrodescendentes, pessoas idosas e representantes dos povos da floresta, do campo, das periferias, dos mares, rios, lagos e mangues.

Considerado o maior espaço de participação social da conferência climática, o evento começou no dia 12 de junho, em paralelo à COP30, e foi marcado por críticas à ausência de maior participação popular na conferência principal. Para as cerca de 1.300 organizações e movimentos que participaram da cúpula, países e tomadores de decisão, especialmente dos países ricos, têm se omitido ou apresentado soluções absolutamente ineficientes, colocando em risco a meta de 1,5°C estabelecida pelo Acordo de Paris.

A programação da Cúpula dos Povos incluiu momentos emblemáticos, como a "barqueata" realizada na abertura, quando centenas de barcos navegaram pela Baía do Guajará em defesa da Amazônia e dos povos tradicionais. No sábado (15), cerca de 70 mil pessoas participaram da Marcha Mundial pelo Clima, que tomou as ruas de Belém com uma mostra expressiva da diversidade cultural e social do povo amazônico.

Após cinco dias intensos de debates, mobilizações e manifestações que marcaram a capital paraense, o encerramento da Cúpula dos Povos foi celebrado com um "banquetaço" na Praça da República, no centro de Belém. O evento contou com distribuição de comida preparada por cozinhas comunitárias e celebração cultural aberta ao público, simbolizando a união e a resistência dos movimentos sociais frente à crise climática global.