A cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, decretou situação de calamidade em saúde pública devido ao avanço da epidemia de chikungunya. O município, que já havia declarado emergência em saúde no dia 20 de março e em defesa civil uma semana depois, agora enfrenta um cenário considerado crítico pelas autoridades locais.
Os casos, que inicialmente estavam concentrados na Reserva Indígena de Dourados, agora se espalharam pelos bairros da cidade. De acordo com a prefeitura, já foram registrados 6.186 casos prováveis da doença, com taxa de positividade de 64,9%. Até a última segunda-feira (20), o município contabilizava 4.972 casos prováveis, sendo 2.074 confirmados, 1.212 descartados e 2.900 em investigação.
O decreto de calamidade, que tem validade de 90 dias, foi baseado em orientações do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE), criado para coordenar o enfrentamento à epidemia. Segundo comunicado da prefeitura, o sistema de saúde local está com capacidade instalada extrapolada, com taxa de ocupação de leitos de internação em aproximadamente 110%, o que configura "impossibilidade de resposta assistencial oportuna até mesmo para casos graves".
A situação é ainda mais grave na reserva indígena, onde foram confirmadas sete das oito mortes por complicações da chikungunya registradas até o momento no município.
Vacinação com restrições
A prefeitura prepara o início da campanha de vacinação contra a chikungunya, que deve começar na próxima segunda-feira (27). As primeiras doses chegaram ao município na noite da última sexta-feira (17), e nesta quarta (22) e quinta-feira (23), profissionais de enfermagem estão sendo capacitados para esclarecer a população sobre as restrições à vacina.
As regras definidas pelo Ministério da Saúde são bastante específicas: apenas pessoas com mais de 18 anos e menos de 60 anos podem receber a vacina. A meta é vacinar pelo menos 27% da população-alvo, o que corresponde a cerca de 43 mil pessoas em Dourados.
A vacina não pode ser aplicada em gestantes ou lactantes; pessoas que façam uso de medicamentos imunossupressores; pessoas com imunodeficiência congênita; em tratamento de câncer com quimioterapia ou radioterapia; transplantados de órgão sólido; transplantados de medula óssea há menos de dois anos; pessoas com HIV/aids; com doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatóide; e pessoas com pelo menos duas condições médicas crônicas, incluindo diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca, entre outras.
Também estão excluídos quem teve chikungunya nos últimos 30 dias; quem está em estado febril grave; quem recebeu outra vacina de vírus atenuado nos últimos 28 dias; e quem recebeu vacina de vírus inativado nos últimos 14 dias.
A expectativa é que a imunização aconteça de forma mais lenta, já que cada pessoa precisa passar por avaliação profissional antes de receber a dose. Na sexta-feira (24), os imunizantes serão distribuídos para todas as salas de vacinação do município, incluindo as unidades da saúde indígena.
O calendário prevê ainda uma ação de vacinação no formato drive-thru no feriado de 1º de maio, Dia do Trabalho, das 8h às 12h, no pátio da prefeitura de Dourados.
Contexto nacional
A vacina contra a chikungunya foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025 e começa a ser administrada de forma estratégica em regiões de potencial risco de transmissão. Cerca de 20 municípios, de seis estados, devem ser contemplados.
"A seleção dos municípios considerou desde fatores epidemiológicos, relacionados à potencial ocorrência de casos de chikungunya em regiões onde o vírus já está circulando, até o tamanho populacional dos municípios e a facilidade operacional de se implementar uma nova vacina no sistema local de saúde em um curto prazo", informou a prefeitura.
Apoio federal
No fim de março, o Ministério da Saúde liberou aporte emergencial de R$ 900 mil para ações de vigilância, assistência e controle do chikungunya em Dourados. O valor será transferido em parcela única, do Fundo Nacional de Saúde (FNS) ao fundo municipal.
"Os recursos poderão ser utilizados para intensificar estratégias como vigilância em saúde, controle do mosquito Aedes aegypti, qualificação da assistência e apoio às equipes que atuam diretamente no atendimento à população", informou o ministério.
Sobre a doença
A chikungunya é uma arbovirose transmitida pela picada de fêmeas infectadas do mosquito Aedes aegypti. O vírus foi introduzido no continente americano em 2013 e chegou ao Brasil em 2014, nos estados do Amapá e da Bahia. Atualmente, todos os estados brasileiros registram transmissão do arbovírus.
Em 2023, o Ministério da Saúde citou uma importante dispersão territorial do vírus no país, principalmente em estados da Região Sudeste, enquanto anteriormente as maiores incidências concentravam-se no Nordeste.
As principais características clínicas da infecção são edema e dor articular incapacitante, mas também podem ocorrer manifestações extra articulares. Casos graves podem demandar internação hospitalar e evoluir para óbito.

