No povoado de Tala, a 100 quilômetros de Montevidéu, no Uruguai, o cultivo intensivo da beterraba açucareira deixou um rastro de destruição que perdura mesmo depois de décadas. A planta, que não é nativa da região, precisou de grandes quantidades de agrotóxicos para se desenvolver, aplicados por empresas uruguaias e multinacionais. Hoje, embora o cultivo já tenha cessado, as consequências ainda são visíveis: solo degradado, água contaminada e problemas de saúde na população local.
O coordenador da Red Nacional de Semillas Nativas y Criollas, Marcelo Fossati, em entrevista à Agência Brasil durante a Cúpula dos Povos em Belém, relatou que a beterraba açucareira, originária de regiões frias da Europa, como Bélgica e Bulgária, não se adaptou bem ao Uruguai. "É um cultivo que exige muita aplicação de fertilizantes químicos para produzir e, além disso, não é uma planta desta região", explicou. "Por isso, aqui, ela sofre com muitos problemas de pragas e doenças."
Fossati destacou que, atualmente, o solo perdeu a capacidade de reter água da chuva devido aos agrotóxicos. "O solo, em si, é uma espécie de esponja cheia de poros, e é nesses poros que a água fica. Mas o produto químico destruiu esses poros, então, o solo perdeu a capacidade de reter água", afirmou. Isso força os agricultores a dependerem de irrigação artificial, já que a água da chuva escorre rapidamente, carregando consigo a camada fértil do solo.
Os impactos na saúde são igualmente graves. Fossati relatou que pessoas na faixa dos 50 e 60 anos, que cresceram durante a Revolução Verde nos anos 1960 e 1970, estão desenvolvendo doenças como câncer no intestino, câncer de pele, câncer de esôfago, problemas respiratórios e dermatológicos. "Os agrotóxicos chegavam com propaganda dizendo que não faziam mal, que alguém podia até pegar o veneno e misturar com a mão", contou. "Esse veneno entrava pela pele lentamente. Na hora, dava só uma pequena coceira ou uma bolha. Mas esse veneno ia penetrando, acumulando-se lentamente, e hoje, aos 50 ou 55 anos, aparecem os problemas."
Além disso, a contaminação se estende ao ambiente doméstico e à água subterrânea. "Muitas vezes, terminam de aplicar o produto em tomate, berinjela ou pimentão, e deixam a roupa usada dentro de casa, com as crianças circulando", disse Fossati. Um estudo em escolas rurais há sete anos analisou a qualidade da água subterrânea consumida pelas crianças e encontrou contaminação por agrotóxicos em todas as 76 amostras coletadas.
Fossati denunciou empresas como Isusa e Proquimur, que mantêm nomes uruguaios, mas são controladas por multinacionais. "Elas mantêm os nomes antigos para não associar diretamente os problemas às multinacionais", explicou. "Então, quando ocorre uma intoxicação — por exemplo, um avião passa, o vento muda, e as pessoas ficam com bolhas na pele — o problema não é atribuído à multinacional, mas à Proquimur."
Na relação com a emergência climática, Fossati apontou que a produção e aplicação de agrotóxicos consomem grandes quantidades de energia. "O agrotóxico não existe na natureza. É um produto de síntese química, que combina diferentes substâncias em uma única molécula", afirmou. "Isso exige enorme gasto de energia. Há estudos dizendo que se gasta mais energia produzindo ureia [fertilizante nitrogenado] do que o trator gasta para aplicá-la." Ele destacou que o ciclo completo — produção, aplicação e transporte — emite gases de efeito estufa, contribuindo para as mudanças climáticas.
A Red Nacional de Semillas Nativas y Criollas, coordenada por Fossati, reúne mais de 250 propriedades familiares e 350 produtores em diversos departamentos uruguaios, com o objetivo de resgatar e valorizar sementes nativas para a produção familiar. A rede inclui parceiros como a Rede Amigos da Terra – Uruguai – e a Faculdade de Agronomia da Universidade da República, promovendo alternativas sustentáveis ao modelo dependente de agrotóxicos.

