Duas pesquisadoras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) foram selecionadas para participar do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) que atua como principal referência científica global sobre a crise climática. Letícia Cotrim e Luciana Prado, ambas da Faculdade de Oceanografia, integram um grupo de 664 especialistas de 111 países escolhidos para atuar como autoras do relatório do 7º Ciclo de Avaliação, que será concluído em 2028.
Segundo a Uerj, apenas 18 pesquisadores brasileiros compõem o novo ciclo do IPCC, e a universidade estadual é a única instituição brasileira a participar com duas mulheres. Em nota, a universidade destacou que a seleção "evidencia tanto a excelência científica da universidade quanto a importância da presença feminina em espaços estratégicos de formulação de políticas globais baseadas em evidências científicas".
O relatório do IPCC é referendado por todos os países signatários da ONU e utilizado para orientar decisões governamentais, acordos internacionais e estratégias de adaptação e mitigação. Embora o documento recomende políticas públicas e ações, ele não obriga as nações a adotar as medidas nele contidas. A cada ciclo de avaliação, os especialistas selecionados analisam os conhecimentos científicos mais recentes sobre temas como os indicadores físicos das mudanças climáticas, seus impactos e riscos associados, além das possibilidades de respostas por meio de adaptação e mitigação.
As professoras foram escolhidas, respectivamente, como autora-coordenadora e autora-líder do Grupo de Trabalho 1, que se dedica às bases físicas do clima. Letícia Cotrim, do Departamento de Oceanografia Química, já atuou como autora-líder no 6º Ciclo de Avaliação (2018-2021). Ela está participando como um dos três autores coordenadores do capítulo 4: avanços no entendimento de processos no sistema terrestre e mudanças associadas ao clima.
"Dentro do escopo delineado pelo IPCC para este capítulo, entram aspectos do funcionamento de ecossistemas terrestres, marinhos e costeiros, e suas interações com a atmosfera e a criosfera (polos e regiões de alta montanha com geleiras)", explica a professora.
Para Luciana Prado, do Departamento de Oceanografia Física e Meteorologia, ser selecionada para integrar o IPCC representa um marco importante na carreira. "Houve muitas inscrições no mundo inteiro para participar do 7º Ciclo", destaca. A professora vai participar do Capítulo 2, que descreve as mudanças climáticas observadas nas últimas décadas do ponto de vista global, uma espécie de diagnóstico global.
"A minha parte está relacionada a compilar os estudos que foram feitos para climas passados, é a paleoclimatologia. Olhando para essas situações, a gente consegue entender melhor como o sistema climático funciona para fazer melhores projeções futuras", completa Luciana.
Os temas analisados pelo Grupo de Trabalho 1 incluem gases de efeito estufa e aerossóis na atmosfera; mudanças de temperatura do ar, da terra e dos oceanos; ciclo hidrológico e alterações nos padrões de precipitação; eventos climáticos extremos; geleiras e calotas polares; oceanos e elevação do nível do mar; biogeoquímica e o ciclo do carbono; além da sensibilidade climática. A avaliação científica combina observações, dados de paleoclima, estudos de processos, teoria e modelagem, oferecendo uma visão abrangente do sistema climático, de sua evolução e das causas das mudanças observadas.
Por ser signatário da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o Brasil pode indicar cientistas para compor o painel, cabendo ao IPCC a seleção com base na área de atuação, especialidades e produção científica. A primeira reunião dos autores-líderes e coordenadores dos três grupos de trabalho do 7º Ciclo ocorreu na primeira semana de dezembro, em Paris. O processo de elaboração dos relatórios prevê ainda rodadas de revisão por cientistas e governos signatários, antes da aprovação do sumário final, que orienta compromissos internacionais.
O próximo encontro dos autores do IPCC está previsto para abril de 2026, em Santiago, no Chile. Enquanto isso, o Brasil tem demonstrado movimentos paralelos na agenda climática, como o anúncio de R$ 9,8 bilhões para adaptar o SUS às mudanças climáticas e a redução de 16,7% nas emissões de gases do efeito estufa em 2024, reforçando o contexto em que o trabalho das pesquisadoras da Uerj se insere.

